quarta-feira, 18 de maio de 2011

MELANCIA - Marian Keyes

Com 29 anos, uma filha recém-nascida e um marido que acabou de confessar um caso de mais de seis meses com a vizinha também casada, Claire se resume a um coração partido, um corpo inteiramente redondo, aparentando uma melancia, e os efeitos colaterais da gravidez, como, digamos, um canal de nascimento dez vezes maior que seu tamanho normal. Nada tendo em vista que a anime, Claire volta a morar com sua excêntrica família - duas irmãs, uma delas obcecada pelo oculto, e a outra, uma demolidora de corações; a mãe viciada em telenovelas e com fobia de cozinha; e o pai, à beira de um ataque de nervos. Após passar alguns dias em depressão, bebendo e chorando, Claire decide avaliar os prós e contras de um casamento de três anos. É justamente nessa hora que James, seu ex-marido, reaparece. Claire irá recebê-lo, mas lhe reservará uma bela surpresa.

Trechos do livro:

"Tenha cuidado com seus desejos. Você pode conseguir realizá-los."

"Deus ajuda àqueles que ajudam a si mesmos, pois Ele não pode dirigir um carro estacionado."

" Sabia que fizera a coisa errada. Pelo menos pensava ter feito. Mas acontece que aquilo era a vida real. e nenhuma decisão era inteiramente clara. Não é como virar no lugar certo e conseguir a felicidade para sempre ou virar no lugar errado e sua vida se transforma num desastre. Na vida real, muitas vezes é quase impossível dizer qual a decisão que se deve tomar, porque o que se ganha e o que se perde muitas vezes são equivalentes."

"Sabe como é. Às vezes, você conhece uma pessoa maravilhosa, mas apenas por um rápido instante. Talvez em férias, num trem ou até numa fila de ônibus. E essa pessoa toca sua vida por um momento, mas de uma maneira especial. E, em vez de lamentar o fato de ela não poder ficar com você por mais tempo ou por você não ter a oportunidade de conhecê-la melhor, não é mais sensato ficar satisfeito por ter chegado a conhecê-la um dia?"

"Ninguém sabe quanto é forte, até precisar ser. Lembre-se: o que não mata, fortalece."

"Quando a felicidade faz uma aparição como convidada especial na vida da pessoa, é importante aproveitá-la ao máximo. Pode não ficar por perto muito tempo e, quando for embora, não será terrível pensar que todo o período no qual se poderia ser feliz foi desperdiçado com preocupações sobre quando isso aconteceria?"

quarta-feira, 11 de maio de 2011

UMA ROSA PARA EMILY em análise

William Faulkner foi o primeiro escritor que abordou em sua literatura o lado feio da região sul dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo em que os defeitos da região são expostos no texto, é também apresentada uma dualidade de caráter em seus personagens. A dicotomia bem/mal é presente o tempo todo, deixando o leitor um tanto inquieto e em dúvida quanto à idoneidade destes personagens.

Como prova disso, um dos seus contos mais famoso, “Uma rosa para Emily”, a própria Emily representa a mudança do Antigo Sul dos Estados Unidos para o Novo Sul.

O conto é narrado por pessoas que conheceram de alguma forma a personagem, atribuindo assim, uma visão um pouco comprometida dos acontecimentos, apresentando o tempo todo, um tom de ‘fofoca’, de história que passa de boca em boca, o que faz com que o leitor sinta que está realmente numa conversa entre vizinhos.

Miss Emily é tida como representante da cultura sulista e trai as leis da sociedade ao se apaixonar por um yankee. É como se estivesse esnobando todas as conquistas da região sul e esquecendo todas as rivalidades ocorridas com os yankees durante a Guerra da Secessão. Mas ela pouco se importa com isso, evidenciando assim, sua relação nula com a comunidade.

No início do conto, são apresentados os motivos pelos quais as pessoas foram ao funeral de Emily. Os homens, por exemplo, estiveram lá para mostrar respeito por um ‘monumento caído’, metáfora tanto para a casa quanto para Emily, e as mulheres compareceram por mera curiosidade e viram o funeral como oportunidade de descobrir o que havia dentro da casa.

A casa de Emily representava ela mesma. Esteve fechada por muito tempo, inacessível, e quando foi aberta, surpresas inimagináveis vieram à tona, surpreendendo e causando espanto a toda a cidade. As pessoas queriam saber o que havia dentro da casa, e o que havia dentro de Emily – como ela era em sua intimidade, que fora sempre preservada.

Embora o pai de Emily tivesse sido severo com ela durante toda a vida, proibindo-a de namorar, ela se recusava a aceitar sua morte, mantendo seu cadáver em casa, como uma tentativa de mantê-lo por perto, até que foi obrigada a enterrá-lo. Também cortou o cabelo como símbolo de sua sexualidade oprimida.

O conto relaciona vida e morte à decadência econômica das pessoas ricas, assemelhando-se assim ao conto “A queda da casa de Usher”, de Edgar Allan Poe.

A escuridão está sempre presente na casa, e quando os políticos da cidade entram, eles vêem “uma entrada escura, a partir da qual uma escada subia em direção a sombras mais escuras”. As cortinas só foram abertas quando Emily aceitou receber os visitantes, e enquanto isso não acontecia, não havia luz. Não havia porque Emily não permitia que as pessoas a olhassem claramente. Não queria que soubessem o que estava acontecendo dentro da casa e dentro dela mesma.

Um cheiro ruim é mencionado ao longo do conto. Trata-se do cheiro de um cadáver, que pode ser visto como a desintegração da alma, a podridão humana e o fim do período em que os ricos proprietários de algodão eram a base da vida em pequenas cidades do interior. Quando os campos não eram mais produtivos, os donos já não eram mais necessários à sociedade.

Em relação ao título, a rosa pode simbolizar um prêmio por Miss Emily ter desempenhado muito bem seu papel durante a vida. Também pode representar sua fragilidade. Fragilidade esta que ela demonstrava com a morte do pai e o amor de Homer.

Outra hipótese é que a rosa seja o símbolo do sofrimento de Emily. A vida boa e confortável estaria representada pelas pétalas de rosa, tão frágeis como qualquer vantagem material que possamos ter na vida. Embora a rosa seja linda, ela possui dois lados: bem e mal. Os espinhos representam seus sofrimentos, significando que não há perfeição na vida. No final, o quarto onde está o cadáver é descrito como tendo ‘acima das cortinas de cor desmaiada, sobre as luzes do sombreado rosa’, onde prevalece a cor com o mesmo nome da flor, que também desvanece se não é bem cuidada.

Pode-se dizer que o conto “Uma rosa para Emily” carrega a presença do trágico, principalmente por apresentar traços de ironia.

O conto é narrado de forma decrescente e cada momento leva a crer que está sendo exposto o ponto de vista de uma sociedade, no caso, a do sul dos Estados Unidos.

Emily, nada mais é que a representação de uma heroína trágica que estabelece um paralelo com os acontecimentos local.

A vida de Emily transparece a ordem social e jurídica da época, uma ponte entre caráter e destino.

Com a morte de seu pai, o mundo de Emily não está mais dividido entre norte e sul, assim como acontece nos Estados Unidos de William Faulkner. Enquanto yankees e dixies ocupam o mesmo espaço, Emily ocupa somente aquilo que é esperado de uma mulher: a reclusão incontestável.

O tratamento que o pai de Emily conferia à filha enquanto vivo, faz referência à sociedade escravista e coronelista. É um traço da arrogância da aristocracia, querendo impor autoridade à grande parte da população sem voz.

As análises confirmam o objetivo de Faulkner: contextualizar a sociedade dos Estados Unidos e seus fatos ao leitor. O autor corresponde às expectativas, simbolizando em suas personagens e histórias uma compreensão de mundo (no caso, norte-americano), mas acima de tudo, tecendo a história estadunidense pelos olhos da ficção e deixando nas entrelinhas sombras de um cenário de luta entre igualdade e rejeição.


Por Angie Chalas e Larissa Castro

segunda-feira, 9 de maio de 2011

REPÓRTER MANTÉM HOMEM SOTERRADO POR 6 DIAS - A mídia e seu discurso

A Montanha dos Sete Abutres” (Ace in the Hole), dirigido por Billy Wilder, apresenta reflexões atuais para um filme que foi feito no início da década de 1950. Além de ser essencial para quem se aventura na área do jornalismo, o enredo é capaz de levantar uma série de questões sobre até que ponto a mídia determina o que o indivíduo deve saber em sociedade.

A história é relativamente simples. O jornalista Charlie Tatum, desempregado nos grandes centros por sua conduta questionável, busca refúgio em pequeno jornal em Albuquerque, no estado do Novo México. Após longo e tedioso ano ele finalmente encontra uma matéria que pode levá-lo de volta ao grande circuito: um homem preso numa antiga montanha indígena, justamente na Montanha dos Sete Abutres que dá o título do filme em português.

Interessante e digno de destaque é a mensagem que o jornalista encontra na sala de redação em sua primeira visita ao jornal. Um quadro bordado com os dizeres “Diga a verdade”. A partir da análise do filme, podemos desenvolver uma reflexão a respeito da manipulação da mídia sobre fatos, antes de eles virem a público.

Em discussão com seu editor chefe, Tatum afirma: “Se não houver notícias vou à rua e mordo um cão”. As notícias que são veiculadas pela mídia geram lucro, através de tiragens de jornais, de audiência de programas de televisão ou rádio. Como tudo que possui fins lucrativos, a forma como a notícia será passada é altamente elaborada, no sentido de ser publicada de forma a atrair o público e, conseqüentemente, gerar retorno financeiro. Tendo isso em vista, seria ingenuidade acreditar que os fatos que chegam a nós ocorreram exatamente da maneira como foram divulgados. Os repórteres não se limitam a retratar a realidade, mas a recriam, com o intuito de deixá-la mais atraente aos olhos do público. É exatamente assim que o jornalista Tatum constrói a sua história.

O objetivo do trabalho era cobrir uma caça às serpentes, o que seria o grande furo da semana, segundo o editor chefe. Tatum então começa a imaginar que a grande notícia seria se as serpentes fossem soltas em Albuquerque. Chegando no local, o que Tatum e seu assistente encontram é o tal desmoronamento, com um homem da comunidade soterrado a 6 horas. Surge a grande notícia.

A reportagem começa a ganhar forma no momento em que o jornalista induz a vítima a acreditar em sua história, e conseqüentemente colaborar para ela. Tatum foi o único homem a ter contato com Leo Minosa, que estava soterrado, e a fazê-lo acreditar que era seu amigo. O que Leo não sabia era que Tatum precisava mantê-lo soterrado por 6 dias, tempo suficiente para promover seu nome em todos os jornais dos grandes Estados, principalmente entre aqueles que o ignoraram.

Seu discurso apelativo começa a ser divulgado. Como dissemos, o discurso utilizado pela mídia é escolhido a fim de construir uma realidade, apelar para as emoções do público e determinar o que o indivíduo deve saber. O foco do discurso jornalístico não está só no fazer saber, mas principalmente no fazer sentir. Desde que saiba manejar as palavras, o jornalista tem o poder de construir uma realidade através de seus textos.

Com base na promessa que Leo Minosa possa ser resgatado a qualquer momento, Tatum conquista uma aliada absolutamente relevante para seus negócios: a curiosidade humana. Milhões de pessoas chegam ao local para acompanhar o caso fazendo de Charles Tatum o grande herói responsável por resgatar Minosa com vida, pois é ele quem entra na montanha, é ele quem conta sua história.

A história toma um rumo inesperado quando a morte chega antes de um bom contrato com o New York Times. Leo Minosa não resiste a tanto tempo soterrado e morre no sexto dia. Tatum percebe que a morte de Leo não é boa para suas intenções: “Quando tem uma grande história de interesse para os homens, tens de lhe dar um grande final que também interesse aos homens. Quando leva as pessoas a ficarem empolgadas nunca as faça passar por idiotas. Não quero entregar-lhes um homem morto”.

Ao longo do filme, o personagem traz em suas falas algum tipo de ideologia, como quando Tatum discute durante uma viagem com o novato assistente o que é jornalismo e o que é notícia. O protagonista diz que os anos de faculdade do colega foram inúteis. Muito mais útil teria sido a experiência como vendedor de jornais pelas esquinas de Nova Iorque. Desta experiência ele aprenderia o que é notícia – entendida como sendo aquilo que interessa ao público, que vende jornal. O contato direto com a prática cotidiana.

Em outro momento cria uma metáfora ao dizer que é um bom mentiroso, pois já mentiu para homens que usam cinto e a homens que usam suspensórios, mas não seria estúpido a ponto de mentir para um que usasse cinto e suspensório, ou seja, para alguém que estivesse preparado, alguém que verificasse todos os seus textos e fosse esperto o bastante para distinguir seu caráter. No fim do filme, quando o editor chefe e diretor do jornal cobra algum tipo de explicação por aquele circo às custas de uma vida, Tatum retoma a metáfora dizendo: “Cintos e suspensórios não são mais usados. Estamos no século XX”.

O que nos anos 50 era raro nas redações, hoje é regra para qualquer jornal em busca de lucros. O que os jornais produzem são mercadorias e não informação. E se para isso for preciso omitir a verdade e criar uma realidade que venda, assim será feito, sem pensar nas consequências sociais desse ato.

Por Angie Chalas e Larissa Castro

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Ser diferente é normal

http://juntospelainclusaosocial.blogspot.com/

Crônica de uma plebeia


Ela acorda todos os dias às 5 horas da manhã.

Toma banho com os olhos ainda fechados.

Depois do café, pega um ônibus e metrô lotados.

No metrô, a empurram.

Pisam no seu pé.

Ninguém pede pra segurar seus livros.

Entra no vagão por força da multidão, não porque decidiu entrar.

Não tem onde segurar.

Se ela não ocupar as regiões das portas ela não desce na estação desejada.

Se ocupa, é amassada como se fosse um ser invisível.

A barriga ou perna ou braço de alguém encosta no celular que está na sua bolsa e sem querer liga para outro alguém da sua lista de contatos às 6 horas e 30 da manhã.

Chega na faculdade descabelada, amassada, suada.

Mesmo num frio de 12 graus.

Assiste a quase 4 horas de aula.

"Abram a apostila" - diz a professora.


"Agora façam um resumo do que vocês entenderam" - pede a professora.

Em 4 horas realizam essa atividade.

Volta para casa ao meio-dia.

Com fome, com sono.

Pega o mesmo metrô e ônibus.

Mais vazio, confessa.

Chega e come o bom e velho feijão com arroz da sua mãe, assistindo ao jornal que reporta todas as desgraças do país.

Sobe para o quarto e começa:

Lê apostilas, faz resumos, responde e-mails, escreve textos dissertativos, faz análises literárias...

Em seguida começa a trabalhar:

Prepara aulas, corrije provas e exercícios, pesquisa jogos didáticos no google...

Sai correndo para dar aula.

Cada dia num lugar diferente.

É professora particular de inglês.

Pega novamente um ônibus e metrô para algum lugar da cidade.

Na casa dos seus alunos está sempre feliz, disposta, pronta para falar e responder à todas as perguntas.

São 21 horas.

Ainda não jantou.

Volta para casa.

Dessa vez de carona.

Chega e finalmente janta.

Precisa dormir para acordar cedo.

No dia seguinte quer assistir ao casamento de príncipe William e Kate Middleton.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Uma rosa para Emily (William Faulkner)

"E assim passou ela de geração para geração - querida, inevitável, impenetrável, tranquila e perversa".


Quando Miss Emily Grierson morreu, toda a nossa cidade compareceu ao enterro: os homens em atenção a essa espécie de carinho respeitoso que se tem por um monumento tombado; as mulheres movidas pela curiosidade de ver o interior de sua casa, onde ninguém entrara nos últimos dez anos, exceto um velho negro, ao mesmo tempo cozinheiro e jardineiro.

Era um casarão quadrado, de madeira, outrora branco, decorado de cúpulas, de flechas, de balcões, no estilo pesadamente frívolo da época de 1870, situado na rua que já tinha sido a mais distinta da cidade. Mas as garagens e as debulhadoras de algodão, multiplicando-se em derredor, acabaram por fazer desaparecer até os nomes augustos daquele bairro. A casa de Miss Emily era a única, levantando sua decrepitude teimosa e faceira acima dos vagões de algodão e das bombas de gasolina. Emily tinha ido juntar-se aos representantes daqueles nomes augustos, no cemitério adormecido sob os cedros, onde jaziam entre os túmulos enfileirados e anônimos, dos soldados da União e dos Confederados mortos no campo de batalha de Jefferson.
Viva, Miss Emily fora uma 'tradição, um dever e um aborrecimento: espécie de obrigação hereditária, pesando sobre a cidade desde o dia em que, em 1894, o Coronel Sartóris (o prefeito que baixou o decreto proibindo às negras saírem à rua sem avental) a isentara do pagamento de impostos, isenção definitiva, que datava da morte de seu pai. Isto não quer dizer que Miss Emily aceitasse a caridade. O Coronel Sartóris inventara a complicada história de um empréstimo em dinheiro, feito pelo pai de Miss Emily à cidade e que a cidade, por conveniência própria, preferia reembolsar dessa maneira. Só um homem da geração e com as idéias do Coronel Sartóris poderia ter imaginado semelhante coisa, e só uma mulher poderia ter acreditado.

Quando a geração seguinte, com suas idéias modernas, deu, por sua vez, prefeitos e intendentes municipais, essa concessão provocou alguns descontentamentos. No primeiro dia do ano, dirigiram a Miss Emily uma notificação de impostos. Fevereiro chegou, sem trazer resposta. Enviaram-lhe uma carta oficial, pedindo-lhe para passar, quando pudesse, no gabinete do delegado. Na semana seguinte, o próprio prefeito lhe escreveu, oferecendo-se para ir, em pessoa, à sua casa, ou para mandar buscá-la no seu carro particular. Recebeu, como resposta, uma folha de papel de feitio arcaico, escrita com tinta desbotada, numa letra miúda e fluente, comunicando-lhe que não saía mais de casa. A notificação dê pagamento de imposto vinha inclusa, sem comentários.

O Conselho Municipal reuniu-se em sessão extraordinária. Uma delegação dirigiu-se à sua casa e bateu naquela porta que nenhum visitante transpusera desde que, oito ou dez anos antes, Miss Emily deixara de dar lições de pintura em porcelana. Os membros da delegação foram introduzidos num saguão escuro, de onde uma escada se projetava para as sombras ainda mais que espessas do andar superior. Havia em tudo um cheiro de poeira, de guardado, de coisas que nunca são usadas -um cheiro de mofo e umidade. O negro conduziu-os ao salão, de mobiliário pesado, forrado de couro. Quando o negro abriu as cortinas de uma das janelas, viram que o couro estava estalado, descascando e, ao se sentarem, uma nuvem leve de pó subiu-lhe preguiçosamente em volta das coxas e se espalhou em círculos vagarosos, desenrolando-se, desagregada, na única réstia de sol. Num cavalete de moldura dourada, perto da lareira, via-se o retrato a carvão do pai de Miss Emily.

Levantaram-se à sua entrada. Era uma mulherzinha pequena e gorda, vestida de preto, com uma fina corrente de ouro descendo-lhe do pescoço até a cintura, onde desaparecia no cós da saia. Tinha a ossatura pequena e delicada; talvez, por isso, o que em outra pessoa seria apenas gordura, parecia, nela, obesidade. Dava a impressão de estar inchada, como um cadáver muito tempo submerso numa água estagnada; tinha, mesmo, de um afogado, a carne lívida e balofa. Seus olhos, perdidos nas intumescências de sua face, lembravam dois pedacinhos de carvão enfiados numa bola de massa e iam de um rosto a outro, enquanto os visitantes expunham o caso.
Não mandou que sentassem. Conservou-se, apenas, em pé no limiar da sala, e esperou tranqüilamente que o porta-voz se interrompesse, balbuciando. Então, puderam ouvir o tic-tac do relógio invisível, preso na ponta de sua corrente de ouro.

Sua voz era seca e fria:
- Não tenho impostos a pagar em Jefferson. O Corenel Sartóris me explicou isso. Talvez um dos senhores possa consultar os arquivos da cidade e dar satisfações aos demais.
- Mas nós o fizemos. Nós somos as autoridades no município, Miss Emily. A senhora não recebeu a notificação assinada pelo delegado?
- Sim, recebi um papel - disse Miss Emily. - Talvez ele se considere realmente o delegado... Não tenho impostos a pagar em Jefferson.
- Mas não há, nos livros, nada que o possa provar. Veja a senhora... É preciso que nós...
- Procurem o Coronel Sartóris. Não tenho impostos a pagar em Jefferson.
- Mas, Miss Emily -
- Procurem o Coronel Sartóris. (Havia quase dez anos que o Coronel Sartóris estava morto) - Não tenho impostos a pagar em Jefferson. Tobe! - O negro apareceu. - Acompanha estes cavalheiros.

Assim ela os venceu irremediavelmente, como já lhes vencera os pais, trinta anos antes, a respeito do cheiro. Isso aconteceu dois anos após a morte de seu pai, e quase em seguida à ocasião em que o namorado - aquele mesmo que nós pensávamos iria se casar com ela - a abandonou. Aquela morte e o abandono do namorado fizeram que ela depois pouco saísse de casa. Algumas senhoras tiveram a temeridade de ir visitá-la, mas não foram recebidas e, naquela casa, o único sinal de vida era o negro - ainda moço, então - que entrava e saía com um cesto de compras.
- Como se um homem - seja quem for! - pudesse conservar limpa uma cozinha! - diziam as senhoras. Assim, ninguém se surpreendeu quando se começou a sentir o cheiro. Foi um novo laço que se estendeu entre a gente grosseira e prolífica do bairro e os grandes e poderosos Grierson.

Uma mulher, sua vizinha, foi queixar-se ao prefeito, Juiz Stevens, que contava, então, oitenta anos.

- Mas que quer a senhora que eu faça? - perguntou ele,
- Ora, que ela acabe com isso - disse a mulher. Não existe lei?
- Estou certo de que não será necessário - afirmou o Juiz Stevens. Provavelmente, é só uma cobra ou um rato que o negro matou no quintal. Amanhã falarei com ele a esse respeito.
No dia seguinte, recebeu duas novas queixas; uma partiu de um homem, que apresentou uma súplica tímida.
- Nós precisamos, realmente, fazer alguma coisa nesse caso, sr. Juiz. Eu seria a última pessoa neste mundo capaz de incomodar Miss Emily, mas precisamos fazer alguma coisa.

Nessa mesma noite, reuniu-se o Conselho Municipal: três barbas grisalhas e um rapaz moço, membro da nova geração.
- A coisa é muito simples - disse o moço. - Mandem. lhe dizer para limpar a casa. Dêem-lhe um certo prazo para obedecer e, se ela não...
- Deus me livre, senhor! - exclamou o Juiz Stevens. Quer então dizer a uma senhora, nas bochechas, que ela cheira mal?

Assim, na noite seguinte, de madrugada, quatro homens atravessaram o gramado do jardim de Miss Emily e, como assaltantes, rondaram a casa, farejando os alicerces de tijolos e os respiradouros do porão, enquanto um deles, com um saco nos ombros, fazia, com regularidade, o gesto do semeador. Arrombaram a porta da adega, que salpicaram de cal, assim como todas as dependências. Quando, de volta, atravessaram o gramado, uma janela, até então sombria, iluminou-se de repente e viram Miss Emily sentada à contraluz, ereta, rígida, imóvel como um ídolo. Atravessaram em silêncio o gramado, metendo-se por entre as sombras das acácias que margeavam a rua. Depois de uma ou duas semanas, o cheiro desapareceu.
Isso foi quando as pessoas começaram realmente a ter pena dela. A gente de nossa cidade, que se lembrava de Lady Wyatt, sua tia-avó, que acabara louca, achava que os Grierson se julgavam muito mais importantes do que eram na realidade. Nenhum dos rapazes da cidade fora jamais considerado à altura de Miss Emily. Nós os imaginávamos muitas vezes como um quadro: ao fundo, Miss Emily, esguia figura vestida de branco; no primeiro plano, a silhueta de seu pai, virando-lhe as costas, com as pernas abertas, um chicote na mão; ambos, enquadrados pelos caixilhos da porta escancarada. Assim, quando ela chegou aos trinta anos ainda solteira, não posso dizer que isso tenha causado uma verdadeira alegria, mas nós, os rapazes, nos sentimos vingados; mesmo com os casos de loucura na família, ela não teria virado as costas a todas as oportunidades, se essas se tivessem verdadeiramente materializado.
Morto o pai, correu o boato de que só lhe tinha ficado a casa de herança, o que, de certo modo, alegrou todo mundo. Até que enfim, podiam apiedar-se de Miss Emily. Sozinha e na pobreza, iria humanizar-se. Agora, ela também conheceria a velha satisfação e o velho desespero de um vintém a mais ou de um vintém a menos.

No dia seguinte ao da morte do velho, as senhoras da cidade preparavam-me para ir à sua casa, apresentar-lhe os pêsames, conforme o costume. Miss Emily recebeu-as no limiar da porta, vestida como nos outros dias, e sem a menor marca de tristeza ou sofrimento na expressão. Disse-lhes que o pai não tinha morrido. Repetiu essas palavras durante três dias, quando os pastores e os médicos iam vê-la, tentando persuadi-la a deixar dispor do cadáver. Mas, no momento em que estavam resolvidos a recorrer à Lei e à força, ela cedeu, e enterraram-lhe o pai a toda pressa.

Não se disse, então, que estava louca. Pensamos que tinha agido como devia. Lembrávamo-nos de todos os moços que seu pai afastara, e sabíamos que, achando-se sem nada, ela deveria agarrar-se àquele que a despojara de tudo, como em geral acontece.
Esteve muito tempo doente. Quando tornamos a vê-la, tinha os cabelos cortados, o que a fazia parecer uma menina e lhe dava uma vaga semelhança com os anjos dos vitrais de igreja - uma mistura de trágico e sereno.
A cidade acabava justamente de firmar o contrato para pavimentação das calçadas e, no verão que seguiu a morte de seu pai, começaram os trabalhos. A companhia construtora trouxe negros, mulas e máquinas, e um contramestre chamado Homer Barron, um "yankee", homem grande, moreno e decidido, com um vozeirão enorme e olhos mais claros do que a pele do rosto. Os garotos seguiam-no aos bandos, para ouvi-lo gritar com os negros, e para ouvir os negros cantando em compasso, enquanto erguiam e abaixavam a picareta. Em breve, o contramestre conhecia toda a gente da cidade. Cada vez que se ouviam ruidosas gargalhadas na praça, podia-se jurar que Homer Barron estava no centro do grupo. Não tardamos a avistá-lo, nos domingos à tarde, passeando com Miss Emily na carriola de aluguel, que tinha rodas amarelas e era puxada por uma parelha de cavalos baios.

A princípio, todos ficaram satisfeitos de ver que Miss Emily tinha agora um interesse na vida. As senhoras andavam dizendo: "Naturalmente, nunca uma Grierson tomará a sério um nortista, um assalariado."

Mas havia outras pessoas, as mais velhas, que achavam que nem mesmo o desgosto deveria fazer que uma verdadeira senhora se esquecesse de que "noblesse oblige". (Sem no entanto, empregar essa expressão: Noblesse oblige). Diziam, apenas: "Pobre Emily. Os parentes deviam procurá-la."

Tinha parentes em Alabama, mas, alguns anos antes, o pai rompera com eles por causa da herança da velha Lady Wyatt, a louca, e não havia mais relações entre as duas famílias. Nem sequer se tinham feito representar no enterro.

E, mal a gente velha exclamou "Pobre Emíly", os mexericos começaram: "Vocês imaginam que, realmente. . ." diziam uns para os outros. - "Mas nem há dúvida. Porque, a não ser isso. . " tudo sussurrado atrás das mãos no amarrotado farfalhar de sedas e cetins por detrás das janelas fechadas ao sol das tardes de domingo, enquanto a parelha de cavalos baios passava num leve e apressado clop-clop-clop. - "Pobre Emily!"

Ela, porém, erguia a cabeça bem alto, mesmo quando pensávamos que tinha decaído. Parecia, mais do que nunca, exigir que se reconhecesse sua dignidade de última dos Grierson, como se fosse necessário aquele toque de vulgaridade terrestre para acentuar mais profundamente a sua impenetrabilidade. Tal como no dia em que comprou o veneno para ratos, o arsênico. Isso aconteceu um ano depois de terem começado a dizer:
"Pobre Emily", e quando as duas primas estavam hospedadas em sua casa.
- Quero comprar veneno - disse ao farmacêutico. Contava, então, mais de trinta anos; era ainda delgada, embora estivesse mais magra do que de costume, com os olhos negros, altivos e frios num rosto cuja pele se repuxava na altura das têmporas e em volta das pálpebras, como se imaginava que deveria ser o rosto de um guardião de farol. - Quero comprar veneno.
- Pois não, Míss Emily. Que espécie de veneno? para ratos ou qualquer coisa assim? Recomen...
- Quero o que o senhor tiver de melhor. Não importa qual seja.

O farmacêutico citou alguns:
- Matariam até mesmo um elefante. Mas o que a senhora quer e...
- Arsênico - disse ela. - É bom?
- É... arsênico? Pois sim, senhora. Mas o que a senhora quer ....
- Eu quero arsênico.
- Pois, naturalmente - disse ele. - Se é isso que a senhora quer. Porém, a lei determina que a senhora declare o fim que dará ao veneno.

Miss Emily limitou-se a fitá-lo, com a cabeça pendida para melhor fixar os olhos nos olhos dele, até forçá-lo a desviar o olhar e a ir buscar o arsênico, que embrulhou. O caixeiro negro que fazia entregas trouxe-lhe o pacote, pois o farmacêutico não tornou a aparecer. Ao chegar em casa, tirou o papel; na tampa da caixa, debaixo da caveira e os dois ossos, estava escrito: "Para ratos".

Assim, no dia seguinte, nós dizíamos: "Ela vai suicidar-se", e achávamos que era a melhor solução. Quando começáramos a vê-la com Homer Barrou, tínhamos dito: "Vai casar-se com ele". Depois, dizíamos: "Ela ainda acabará por persuadi-lo", porque o próprio Homer observava - gostava da companhia dos homens e sabia-se que bebia com os rapazes no Elk's Club - que não era feito para casamento. Mais tarde, dissemos: "Pobre Emily", por detrás das venezianas, quando ambos passavam, nas tardes de domingo, na carriola vistosa, Miss Emily de cabeça erguida e Homer Barrou com o chapéu de lado e um charuto entre os dentes, segurando as rédeas e o chicote nas luvas amarelas.

Então, algumas senhoras começaram a declarar que aquilo era uma vergonha para a cidade e um mau exemplo para a gente moça. Os homens não ousavam intervir, mas, finalmente, as mulheres forçaram o pastor batista - a gente de Miss Emily era episcopal - a ir procurá-la. O pastor negou-se sempre a contar o que acontecera durante a entrevista e recusou-se a voltar à sua casa. No domingo seguinte, saíram juntos novamente e, no outro dia, a mulher do ministro escreveu aos parentes de Miss Emily, em Alabama.

Dessa forma, ela teve pessoas de seu sangue outra vez debaixo de seu teto e nós ficamos todos à espera dos acontecimentos. A princípio, nada aconteceu. Depois, ficamos convencidos de que iam se casar. Soubemos que Miss Emily fôra à joalheria e encomendara um jogo de toucador para homem, todo de prata, com as iniciais II. B. gravadas em cada peça. Dois dias mais tarde, fomos informados de que comprara um enxoval masculino completo, inclusive uma camisola de dormir, e dissemos: "Estão casados". E ficamos contentes, porque as duas primas eram mais Grierson ainda do que Miss Emily jamais o fora.

Não tivemos grande surpresa quando, terminado o calçamento das ruas, Homer Barron partiu. Sentimo-nos um pouco decepcionados por não ter havido nenhuma manifestação pública de regozijo, mas julgamos que se tivesse afastado para preparar a ida de Miss Emily, ou para lhe dar a oportunidade de se livrar das primas. (Por essa época formáramos uma verdadeira cabala, e éramos todos aliados de Miss Emily no sentido de ajudá-la a alijar as primas). O que é certo é que elas partiram ao fim de outra semana. E, como esperávamos, no terceiro dia após essa partida, Homer Barron estava de volta à cidade. Os vizinhos viram o negro abrir-lhe a porta da cozinha, uma tarde ao escurecer.

Foi essa a última vez que vimos Homer Barron. E, durante algum tempo, não tornamos também a ver Miss Emily. O negro ia e vinha com a cesta das compras, mas a porta da entrada continuava fechada. Uma vez ou outra conseguimos avistá-la à janela por alguns instantes, como naquela noite em que os homens foram à sua casa espalhar a cal; durante mais de seis meses, porém, ela não apareceu nas ruas. Compreendemos que isso também era de esperar; como se aquele aspecto do caráter de seu pai, que tantas vezes constrangera sua vida de mulher, fosse virulento e furioso demais para morrer assim.

Quando a vimos novamente, Miss Emily tinha engordado muito e seus cabelos estavam ficando grisalhos. Nos anos seguintes, foram ficando cada vez mais grisalhos, até o momento em que, tendo adquirido um tom cinzento-de-aço, sua cabeleira não mudou mais de cor. Até o dia de sua morte, aos setenta e quatro anos, aqueles cabelos conservavam ainda esse vigoroso tom cinzento-de-aço, como os cabelos de um homem ativo.

Desde aquela época, sua porta ficara fechada, exceto no decorrer de um período de seis ou sete anos, quando ela, quarentona, dava aulas de pintura em porcelana. Instalara, num aposento do andar térreo, o atelier onde as filhas e netas dos contemporâneos do Coronel Sartóris lhe eram enviadas com a mesma regularidade e dentro do mesmo espírito com que as mandavam à igreja, nos domingos, munidas de uma moedinha de vinte centavos para a hora da coleta. Nesse ínterim, Miss Emily se vira dispensada do pagamento de impostos.

A nova geração tornou-se, então, a espinha dorsal e a alma da cidade, as alunas cresceram e dispersaram-se, e não lhe mandaram as filhas com as caixinhas de tinta, os aborrecidos pincéis e os modelos recortados das revistas ilustradas femininas. A porta fechou-se sobre a última aluna e ficou fechada desde então. Quando a cidade adotou a distribuição gratuita do correio, Miss Emily foi a única pessoa que se negou a consentir que fixassem um número de metal acima de sua porta e uma caixa postal ao lado. Não houve argumento que a convencesse.

Dias, meses e anos, vimos o negro, cada vez mais grisalho e curvado, entrando e saindo com a cesta de compras. Anualmente, em dezembro, mandavam-lhe a declaração de impostos, que o correio devolvia na semana seguinte, com a nota de não haver sido reclamada. Uma vez ou outra, nós a avistávamos diante da janela do andar térreo - tinha, evidentemente, fechado todo o andar superior da casa - semelhante ao busto esculpido de um ídolo no seu nicho, e nunca chegamos a saber se estava olhando para nós, ou se nem sequer nos via. E assim passou ela de geração para geração - querida, inevitável, impenetrável, tranqüila e perversa.

E, então, ela morreu. Caiu doente no seu casarão cheio de sombras e de pó, tendo como único auxílio o negro caduco. Nem ao menos soubéramos que estava doente, pois havia já muito tempo que desistíramos de arrancar qualquer informação ao negro. Não falava com pessoa alguma, talvez nem mesmo com ela; sua voz se tornara áspera e rouquenha como uma voz que não serve nunca.

Morreu num dos quartos do andar térreo, numa cama de nogueira maciça com cortinados, a cabeça grisalha erguida por um travesseiro amarelo e mofado pelo tempo e pela falta de sol.

O negro encontrou a primeira das senhoras na porta da frente; deixou-as entrar, com suas vozes sussurradas e sibilantes, com seus olhares rápidos, furtivos e curiosos, e depois desapareceu. Meteu-se pela casa a dentro, atravessou-a toda, saiu pelos fundos e sumiu para sempre.

A duas primas não tardaram a chegar. Fizeram o enterro no segundo dia. A cidade em peso compareceu para ver Miss Emily coberta por um montão de flores compradas, o retrato, a carvão, de seu pai profundamente pensativo, acima do caixão, cercado pelas senhoras sibilantes e macabras. No saguão e no gramado, homens, muito velhos - alguns nos uniformes de confederados muito bem escovadinhos - falavam de Miss Emily como se fosse uma de suas contemporâneas, imaginando que tinham dançado com ela, e até mesmo, talvez, que a tinham namorado, confundindo o tempo e a progressão matemática, como fazem os velhos, para os quais o passado não é uma estrada que se vai encurtando, porém uma vasta planície nunca atingida pelo inverno, dividida para eles, agora, pelo estreito gargalo da ampulheta dos últimos dez anos.

Nós todos já sabíamos da existência, naquela região, do andar superior, onde ninguém pisara há quarenta anos, de um quarto fechado que seria preciso arrombar. Esperamos que Miss Emily estivesse docemente enterrada, antes de forçá-lo.

A violência com que pusemos a porta abaixo pareceu encher o quarto de uma poeira penetrante. Era como se uma mortalha, tênue e acre, se estendesse sobre todas as coisas daquele quarto, mobiliado e enfeitado para urna noite de núpcias: sobre as desbotadas cortinas de pesada seda cor-de-rosa, sobre os quebra. Luzes rosados das lâmpadas, sobre a penteadeira, sobre os delicados objetos de cristal, sobre as peças do aparelho de toucador para homem, com seus dorsos de prata embaciados, tão embaciados que nem se distinguiam os monogramas escurecidos.

Entre os pertences do toucador, estavam jogados um colarinho e uma gravata, como se tivessem acabado de tirá-los naquele momento; quando os levantamos, deixaram na superfície uma pálida meia lua traçada na poeira. O terno de roupa estava dobrado cuidadosamente numa cadeira, debaixo da qual se viam os dois sapatos mudos e as meias largadas no chão.

E o homem estava deitado na cama.

Durante muito tempo, ali ficamos, imóveis, olhando para o seu ríctus profundo e descarnado, O corpo devia ter, a principio, repousado na atitude de carícia, abraçado a outro corpo, mas agora o grande sono que sobrevive ao amor, o grande sono que vence até mesmo as carícias do amor, dominara-o afinal. O que restava dele, em decomposição dentro do que restava de sua camisola de dormir, tornara-se inseparável do leito em que jazia; e sobre ele, assim como sobre o travesseiro vazio ao seu lado, estendera-se aquela camada espessa de paciente e obstinada poeira.

Notamos, então, que no segundo travesseiro havia a marca funda de uma cabeça. Um de nós encontrou qualquer coisa caída sobre esse travesseiro e, debruçando-se, enquanto a leve, impalpável poeira acre e seca, nos entrava pelas narinas, vimos um longo fio de cabelo de um tom cinzento-de-aço.


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Olhos Azuis - Jane Elliott

Discriminação, preconceito, desrespeito. Conhecemos muito bem todas essas palavras e sabemos o peso que elas trazem quando discutidas em um tema bastante popular nos dias de hoje dentro da sociedade, denominado de inclusão social.

Mas como seria a reação das pessoas que não sofrem nenhum tipo de discriminação dentro da sociedade se fizéssemos um experimento e invertêssemos os papéis? Foi exatamente isso que fez Jane Elliott, uma professora norte-americana e grande ativista do anti-racismo, em um workshop realizado nos EUA com um grupo de pessoas que se inscreveram para participar da palestra sem saber ao certo o que exatamente aconteceria, para descobrir como elas reagiriam a uma situação de discriminação.

Dentre as pessoas que participavam do workshop havia negros e brancos, onde sem dizer o que iria acontecer Jane selecionou 17 pessoas entre homens e mulheres todos brancos e de olhos azuis que ficariam trancados em uma pequena sala sem nenhuma ventilação e com apenas três cadeiras para se sentarem, em um período de 2 horas e 30 minutos.

Enquanto estavam trancados na sala, Jane estava observando o comportamento deles em outra sala com o restante das pessoas que foram participar do workshop. O objetivo era dar às pessoas brancas e de olhos azuis a oportunidade de saber como é não ser branco nos EUA, e fazê-los colocar os “sapatos” de uma pessoa negra por um dia. Para isso essas pessoas eram rotuladas com base apenas na cor dos olhos, utilizando todos os rótulos negativos usados contra mulheres, pessoas de cor, pessoas com deficiência física, gays, lésbicas e todas as outras que sejam diferentes fisicamente.

O resultado desse experimento foi surpreendente e ficou claro que quanto mais aceitamos os rótulos que a sociedade nos coloca, mais nos sentimos incapazes e inferiores.

É inexplicável o fato de sermos tão omissos a determinadas situações. Por que não conseguimos nos impor e agir sobre todas as ações que consideramos erradas e inadequadas? Por que temos medo de nos envolver no que diz respeito à dor do outro?

Para grande parte da população que não sofre com o preconceito e que está sempre incluída em um grupo é muito mais fácil não se envolver e apenas dizer: “Eu não fiz isso, e, portanto não sou o responsável”. Isso é um fator decisivo para a manutenção de um mal chamado de preconceito, pois não fazer nada é apenas dar aprovação para os que praticam esse ato.

Vivemos em uma sociedade em que muitas vezes muitas pessoas não se preocupam com o bem estar do outro, mas com as conseqüências que um ato discriminatório possa ter. Vou ajudar aquela pessoa com dificuldade não porque eu quero incluí-la na sociedade, mas sim porque se eu fizer algo que possa causar algum dano, ela pode me processar.

A sociedade pode muitas vezes manipular as pessoas em muitos aspectos, sejam eles prejudiciais ou não ao outro. E por esse motivo o individuo que não se enquadra aos padrões dessa sociedade, sociedade em que você precisa ter certas condições para fazer parte de um grupo, aprende a aceitar para ser aceito submetendo-se a opressão. Tudo isso porque infelizmente esse indivíduo tem a crença de que ao aceitar, é possível se sentir mais a vontade livre da forte pressão diária. E infelizmente essa aceitação acontece, pois a humilhação do outro não incomoda a sociedade, se incomodasse, essa humilhação teria fim.

O experimento realizado por Jane é muito verdadeiro, pois se pegarmos qualquer ser humano que não tenha nenhuma limitação e passarmos a rotulá-lo como alguém incapaz ou inferior, em poucos minutos ele vai se tornar alguém extremamente desconfiado sobre esse rótulo e vai se sentir ameaçado. É justamente isso que vemos presente a todo o momento na sociedade, pessoas sendo rotuladas e sem forças para lutar contra isso porque infelizmente elas não têm um grupo ao seu redor que possa acolhê-las e brigar por uma causa nobre denominada inclusão.

Infelizmente nós vivemos em uma sociedade onde é mais fácil se omitir do problema do outro, do que ajudá-lo a enfrentar. Não lutamos, não brigamos pela causa do outro porque temos medo de sermos excluídos. Mas e quando essa causa é nossa, será que o outro irá nos ajudar?

Cada vez que ficamos em silêncio e nos omitimos, damos força ao que chamamos de preconceito, pois o silêncio dá força aos opressores.

Fica muito claro que todos nós temos uma lição a ser aprendida: O que nos faz iguais é que somos, todos, diferentes uns dos outros. De onde vem o medo de ser diferente? Por quê tanto silêncio?


OLHOS AZUIS (JANE ELLIOTT)


Quando vieram contra os negros, eu não era negro e não fiz nada.
Quando vieram contra os favelados, eu não era favelado, não fiz nada.
Quando vieram contra os homossexuais, eu não era homossexual e não fiz nada.
Quando vieram contra as mulheres, eu não era mulher e não fiz nada.
Quando vieram contra os desdentados, eu não era desdentado e não fiz nada.
Quando vieram contra os analfabetos, eu não era analfabeto, não fiz nada.
Quando vieram contra os pobres, eu não era pobre e não fiz nada.
Quando vieram contra os cegos, eu não era cego, não fiz nada.
Quando vieram contra os aleijados, eu não era aleijado e não fiz nada.
Quando vieram contra os outros, o assunto não me dizia respeito e não fiz nada.
Quando vieram contra mim, ninguém me defendeu.
Quem não é vitima de discriminação e abuso sempre pensará que o sofrimento do outro não é grande coisa, que é exagero.
Alguns acham que discriminação nem existe, que não existe discriminação contra negros, contra mulheres, contra homossexuais, aleijados, favelados, pobres.
Assim seguimos e fazemos todos os dias, desprezamos ou diminuímos o sofrimento alheio.Não dando atenção à dor do outro nos condenamos a sofrermos em silêncio, a sofrermos sozinhos a nossa própria dor. O preconceito só existe porque o silêncio favorece os opressores. Quem, acovardado, se omite, concorda com o abuso. Quem concorda com o abuso, será abusado ouvindo o silêncio cúmplice dos outros. E tudo parece muito normal, tão normal quanto sofrido e solitário.

Por Roberta Pontes